Resenhas

A Curva Do Sonho (Ursula K. Le Guin): Um debate sobre a Moral e o papel do indivíduo no todo.

A Curva do sonho é uma distopia assustadoramente atual e que usa a ficção científica como plano de fundo para discutir questões morais e de sociedade.

Em um mundo assolado por instabilidade climática e superpopulação, George Orr, um cidadão pacato e mundano, descobre que seus sonhos têm o poder de alterar a realidade. Quando acorda, o mundo que conhecia tornou-se um lugar estranho, quase irreconhecível, em que apenas ele tem a memória de como era antes.

Sem rumo, ele busca a ajuda do Dr. William Haber, psiquiatra que logo deixa de lado o seu ceticismo e entende o poder que George possui, transformando-o em um peão de um perigoso jogo, em que o destino da humanidade fica mais ameaçado a cada instante.

A primeira coisa que me chamou atenção na leitura de “A Curva do Tempo”, foi não conseguir reconhecer quando a obra tinha sido escrita. Normalmente obras de ficção científica ou distopias podem acabar envelhecendo de forma datada, porém não é o caso dessa obra, pois apesar de ter diso escrita em 1971, seria extremamente fácil colocá-la como tendo sido publicada atualmente.

A segunda coisa a me chamar atenção foi o personagem principal: George Orr está muito longe do padrão de masculinidade da época (creio que até mesmo do padrão atual) ainda mais para o “herói” de uma trama. Ele é um homem passivo, sensível, que tem problemas de se impor e com um senso de moral próprio muito bem desenvolvido. Em nenhum momento essas características são vistas como um problema (a não ser pelo “antagonista”), não é algo que George tem que superar, está tudo bem em ele ser assim. Foi muito agradável ver um exemplo tão bom de uma masculinidade não tóxica em um protagonista dos anos 70.

Ainda sobre as personagens, temos também a advogada Heather Lelache que é uma mulher negra, uma das personagens principais e não é a vilã! Ela sofre de alguns esteriótipos, mas nada muito agressivo. Eu tenho dificuldade de encontrar personagens negras em livros atuais (em que o fato de elas serem negras não seja sua principal característica), imagina minha alegria e surpresa ao ver isso em um livro de 1971!

Mais do que uma distopia e uma ficção científica, A Curva do Sonho é um debate moral, existencial e social: Até que ponto devemos influenciar o todo com a nossa visão individual do que é melhor? Se eu tiver o poder de mudar uma situação terrível e não fizer nada, o que isso faz de mim? Quem tem o poder de decidir o que é melhor? O que nós somos além de nossas memórias e vivências? O que é aceitável abrir mão em prol de “um mundo melhor”?

Podemos vivenciar esses conflitos se manifestando no embate de dois personagens de personalidades e ideais completamente opostos: George Orr, o sonhador que quer apenas se ver livre do sua capacidade de alterar a realidade, pois acha que ninguém deveria ter esse poder e o Dr. Haber que vê na habilidade de Orr uma chance de corrigir todos os males do mundo e acha uma covardia o fato de George querer se livrar desse poder.

A Curva do Sonho é uma leitura rápida, escrita e conduzida de maneira primordial por Ursula K. Le Guin que consegue expressar muito em poucas palavras e que possuía uma criatividade e senso crítico social incrível. É uma obra que promove reflexão e que prende desde as primeiras páginas, sendo sem dúvida, uma das minhas leituras favoritas dos últimos meses.

Nota: 5/5

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