Análises

Literatura Gótica: De Mary Shelley a Álvares de Azevedo

Medo. Um dos sentimentos primordiais mais explorados na literatura, afinal, nada melhor do que o medo e o horror para fazer com que você se sinta vivo. Vamos explorar um tipo de horror literário: A Literatura Gótica ou Horror Gótico, como também é conhecido.
Marcilla ataca a adormecida Bertha, Ilustração do The Dark Blue de D. H. Friston (1872)

Se eu não posso provocar compaixão e amor, então, eu vou provocar o terror.

Frankenstein, Mary Shelley

Medo. Um dos sentimentos primordiais mais explorados na literatura, afinal, nada melhor do que o medo e o horror para fazer com que você se sinta vivo. Vamos explorar um tipo de horror literário: A Literatura Gótica ou Horror Gótico, como também é conhecido.

Visão Geral e Contexto Histórico

Esse gênero literário, que combina ficção e horror, morte e romance, tem inicio no século 18 na Inglaterra com a Obra: “O Castelo de Otranto” de Horace Walpole, que inclusive foi publicada com o subtítulo “A Gothic Story” (Uma história Gótica) na sua segunda edição.

A Literatura Gótica teve suas origens no romantismo, mais especificamente do romantismo sombrio que se baseia em elementos profundos e obscuros da psique humana, o lado perverso da verdade espiritual. O Gótico, leva isso a uma escala acima, contemplando também terror, medo, morte, presságios, o sobrenatural, unindo muitas vezes a emoção e o prazer presentes no horror, tendo como prazer a sublime sensação de estar vivo que o pavor proporciona e que nos leva além de nós mesmos.

“Nenhum organismo vivo é capaz de manter a sanidade durante um longo tempo em condições de absoluta realidade”

A Assombração da Casa da Colina – Shirley Jackson

Autoras românticas e vitorianas que adotaram esse gênero incluem Mary Shelley com “Frankenstein”, Bram Stoker com “Drácula”, e tendo um foco particular no terror psicológico, todo o cânone de Edgar Allan Poe. A palavra “gótico” ressurgiu com popularidade entre os xovens jovens: “gótico” passou a representar uma cultura de música sombria, roupas e atitudes com a intenção de chocar ou perturbar os outros.

Devido a seus elementos supersticiosos, combinando história e ficção, intelectuais iluministas ficaram ofendidos pelos “fatos falsos” da literatura gótica (haja paciência). Vários autores ajudaram a legitimar o gênero impondo realismo para dar credibilidade a seus fantásticos elementos sobrenaturais, principalmente as autoras Ann Radcliffe e Clara Reeve (Só as mina mesmo para colocar ordem na casa #GirlPower)

CURIOSIDADE: “O termo gótico, do francês gothique e do latin gothi que significa “não clássico”, originalmente se referia aos godos, e mais tarde passou a significar “alemão”. Refere-se à arquitetura gótica da era medieval da história européia, local onde muitas dessas histórias ocorrem. Essa forma extrema de romantismo era muito popular em toda a Europa, especialmente entre escritores e artistas ingleses e alemães. O romance gótico inglês também levou a novos tipos de romance, como o alemão Schauerroman e o francês Roman Noir.” (Essa parte foi ctrl + c ctrl + v total da Wikipedia)

O contexto histórico da literatura gótica evoluiu com os eventos sociais, políticos e pessoais predominantes dos autores e suas épocas. Independentemente do contexto e cenário, como os Julgamentos das Bruxas de Salem, castelos mal assombrados, Revolução Americana, apocalipse zumbi ou um amor não correspondido, as obras da Literatura Gótica utilizam elementos comuns que mantêm os leitores cativados.

Embora o gênero tenha entrado e saído de popularidade, autoras e autores ao longo dos tempos continuaram a ter audiência por suas histórias de terror, horror e mistérios do sobrenatural.

Literatura Gótica Americana

A ciência ainda não nos provou se a loucura é ou não o mais sublime da inteligência

Edgar Allan Poe

Ao contrário dos grandes castelos e ruas enevoadas do Gótico Europeu, a ficção gótica americana dá lugar a cavernas e paisagens naturais distintamente estadunidenses e tende a ser caracterizada por temas e ansiedades especialmente importantes para o discurso americano, como religião, tensão racial, natureza e natureza selvagem e racional versus irracional. 

A inabilidade de muitas personagens góticas para superar a perversidade pelo pensamento racional é primordial ao gótico americano. Não é incomum para um protagonista ser sugado para o reino da loucura por causa de seu ou sua preferência pelo irracional. Essa tendência transcende a mais alta razão e parece zombar do pensamento transcendentalista.

Imagens puritanas, especialmente a do inferno (qual mais?!), atuaram como fortes influencias para autores como Edgar Allan Poe e Nathaniel Hawthorne. A cultura puritana de condenação, reforçada pela vergonha e culpa, criaram um duradouro impacto na consciência coletiva e servem de combustível para contos como “O Demônio da Perversidade”, “Gato Preto” e o poema “O Corvo”. Noções de predestinação e pecado original adicionados para a condenação e tristeza dos tradicionais valores puritanos, amadureceram o surgimento de histórias como “O Poço e o Pêndulo” , “O Jovem Goodman Brown” e “A Letra Escarlate”.

Ninguém pode, por muito tempo, ter um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem no final confundir qual deles é o verdadeiro.

Nathaniel Hawthorne

Talvez um pouco mais familiar seja o clássico conto de fantasmas americano, “A Lenda de Sleepy Hollow” de Washington Irving, que já teve inúmeras adaptações. O conto de Irving acontece em uma pequena cidade do interior de Nova York que até hoje permanece sinônimo de conto (eu jurava que era um lugar fictício, olhei imagens e a cidade parece divertida, ao mesmo tempo que assombrada por 27 demônios). Embora tenha sido escrita enquanto Irving estava morando na Inglaterra, a história enfatiza seu caráter norte-americano ao lançar como o principal horror o fantasma de um homem que morreu lutando na Revolução Americana.

E, é claro, o escritor que todas pensam quando se fala de Literatura Gótica Americana:  Edgar Allan Poe. O mestre do macabro, do melancólico, da deterioração mental e emocional. Poe escreveu vários contos e poemas durante 1830 e 1840, ele criou um dos primeiros detetives, lançando o gênero que seria dominado por Agatha Christie e Arthur Conan Doyle anos mais tarde, deu algumas pinceladas na ficção científica, contribuiu significativamente para a popularização do horror assim como todos esses outros gêneros.

Literatura Gótica Brasileira

Invejo as flores que murchando morrem,
E as aves que desmaiam-se cantando
E expiram sem sofrer…

Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo introduziu na literatura brasileira elementos da tradição gótica, como a morte, o ambiente noturno, o amor, o vampirismo. Essa produção rompe com os valores da sociedade, pois apresenta um caráter marginal. Impulsionada muito pelo mal do século, o gótico brasileiro se mistura muito bem com a segunda fase do romantismo e do simbolismo, onde a morte e sentimentos de decadência, tédio, desilusão, da inutilidade e futilidade da existência permeiam grande parte das obras. 

A constante presença da morte por tuberculose alimentava um pessimismo, uma apatia moral e melancolia difusa, alimentavam o culto do mistério, do sonho, da inquietude mórbida, tédio irremissível, sofrimento cósmico, ausência da alegria de viver, fantasia desmesurada, atração pelo infinito.

Tudo isso serviu de combustível para “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, sem dúvida o maior símbolo do gótico brasileiro, que é uma antologia de contos narrados por um grupo de cinco rapazes se abrigando em uma taverna.

Outra obra que merece destaque é “Macário”, peça também de Álvares de Azevedo que é dividia em dois episódios, e conta a história de Macário, um jovem que tem um encontro com o tinhoso satã, e debate pensamento de amor com seu amigo Penseroso.  Macário é considerada por alguns um prenuncio de “Noite na Taverna”.

Nos próximos episódios…

Na sequência, farei uma lista com as principais características da literatura Gótica, assim como algumas obras pertencentes ao gênero. Também pretendo liberar uma playlist no Spotify com algumas músicas para ouvir enquanto leem as obras!

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Referências

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