Resenhas

Recursão (Blake Crouch): Como uma narrativa fraca pode comprometer uma boa premissa

A obra perde a oportunidade de levantar questionamentos morais e ter alguma substância por trás de sua fala científica e loops temporais

“Barry Sutton é policial em Nova York e convive com a tristeza da morte da filha. Ao ser acionado para intervir em uma tentativa de suicídio, ele se depara com uma mulher que sofre da Síndrome da Falsa Memória, uma doença misteriosa que planta na cabeça de suas vítimas lembranças de vidas que elas nunca tiveram.

A neurocientista Helena Smith está desenvolvendo uma tecnologia para a cura do Alzheimer. Inesperadamente, um dos homens mais ricos do mundo se oferece para financiar sua pesquisa. Helena vê surgir a chance de propiciar um grande bem para a humanidade. No entanto, não poderia estar mais enganada…”

Os primeiros capítulos de recursão são muito envolventes. O autor é muito hábil em fisgar a atenção da leitora logo nas primeiras páginas, apresentando muita ação e acontecimentos inexplicáveis. Porém, acaba por ai.

A trama é extremamente rasa, sendo mascarada por “voltas” no tempo e loops temporais, mas sem ter nenhuma profundidade além disso. O dilema moral presente na tecnologia com potencial para destruir a humanidade é banal e nem se pode chamar de dilema, pois temos argumentos fortes e óbvios contra e argumentos nebulosos e até mesmo infantis a favor.

E a fraqueza da trama fica ainda mais evidenciada pelos personagens sem profundidade e pouco carismáticos: Barry é um policial que perdeu a filha de maneira trágica… e é basicamente isso que pode ser dito sobre ele. Helena é uma cientista inteligente e determinada, assombrada por sua criação. As personagens não evoluem e nem é mostrado qualquer aprofundamento além do que é descrito sobre elas nas primeiras páginas, o que dificulta o leitor a se comprometer com a história.

O vilão também é um problema, pois sua motivação cega por algo que obviamente vai dar errado, tira qualquer credibilidade e qualquer maniqueísmo que ele pudesse possuir, transformando-o em um personagem quase sem sentido

Além disso, por ser um livro de ficção científica, gênero conhecido por abordar dilemas sociais e quebrar status quo, é muito triste ver um gênero com tanto potencial ser tão conservador e com personagens tão dentro do padrão em pleno 2019. Ursula K. Le Guin em 1972 conseguiu escrever uma obra mais progressista, com um protagonista que foge do padrão de masculinidade e uma advogada negra.

Para leitores que não estão acostumados a ler ficção científica, acho que é um livro interessante. Tem uma escrita decente e a trama, para quem ainda não consumiu muito o gênero, pode ser atraente. Mas para leitores ávidos de ficção científica, essa obra pode ser um verdadeiro martírio, pois testemunhamos premissas que já foram lindamente utilizadas, tratadas de maneira rasa e quase boba.

Resumindo, é um livro com uma premissa interessantíssima que é capaz de fisgar a atenção da leitora logo no início, mas que só se mantem relevante pela falta de parâmetro.

1 comentário

  1. Totalmente ao contrário da sua opinião, eu achei o livro muitíssimo interessante! E justamente pelo motivo que você ataca: Justamente por ser uma narrativa NORMAL, sem misturança de ficção com ideologias políticas, sem lacração maluca, sem querer colocar personagem negro na trama apenas para ficar politicamente correto. Ou colocar “um branco-hetero-opressor” massacrando uma pobre mulher. Oras, a criatividade do autor é soberba. A trama ficcional é bem tecida, a engenhosidade como ele “bolou” a viagem no tempo foi fantástica!
    Para que mais do que isso? Eu dei nota 10.

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