Resenhas

O Canto dos Segredos (Tana French): Quem Matou é o menos importante

É bem comum romances policiais terem uma narrativa "character driven", entretanto, em Canto dos Segredos, Tana French leva esse conceito ao absoluto extremo.

Neste quinto livro da aclamada série Dublin Murder Squad, que conquistou milhões de leitores no mundo inteiro, Stephen Moran é um detetive ambicioso, mas sem perspectivas de ascensão profissional na Divisão de Casos Não Solucionados. Ele cobiça um posto na Divisão de Homicídios, mas não tem ideia de como chegar lá – até a adolescente Holly Mackey entrar em seu escritório com uma pista irresistível para a solução de um assassinato de grande destaque.

“Se tem uma coisa que eu aprendi hoje, é que garotas adolescente fazem Moriarty parecer um bebê na floresta.”

O Canto dos Segredos

É bem comum romances policiais possuírem uma narrativa “character driven”, entretanto, em O Canto dos Segredos, Tana French leva esse conceito ao absoluto extremo. Alternando entre narrativa em primeira pessoa, contada pelo carismático aspirante a detetive, Stephen Moran e em terceira pessoa, acompanhando os acontecimentos que culminaram no assassinato, French consegue dar peso ao crime através das personagens que são obrigadas a lidar com o acontecimento.

Parte da trama se passa em no internato feminino onde o crime ocorreu, tendo por consequência várias personagens adolescente. Retratar adolescentes pode ser um trabalho árduo. É necessário saber como fazer as personagens críveis tanto para um adulto quanto para a sua fonte de inspiração. Nesse ponto, a autora também brilha.

Eu particularmente não tenho boas lembranças da minha adolescência, é um período que não me traz saudade alguma e mesmo assim, essa obra conseguiu despertar em mim uma nostalgia nunca antes sentida. Consegui entender aquelas personagens, empatizar com seus dramas, seus medos, futilidades, espertezas. Senti saudade das minhas amigas de colégio, senti saudade de coisas e sensações que eu nem mesmo lembrava. Peguei-me pensando como eu gostaria de preservar aquelas personagens, em como gostaria que aquela situação se resolvesse sem maiores consequências, até chegar aos capítulos dos detetives e eu lembrar que era uma adulta e que justiça necessitava ser feita.

“Isso não tem nada a ver com o que o restante do mundo aprovaria ou não. Isso só tem a ver com elas.”

O Canto dos Segredos

Na esfera adulta da trama, temos Stephen Moran, um ambicioso aspirante a detetive da homicídio que não pretende deixar a chance de solucionar um caso notório lhe escapar, sendo obrigado a trabalhar com Antoinette Conway, uma detetive da homicídios com poucos amigos e que está muito bem assim, obrigada. O mais interessante da dinâmica dos dois não é somente o fato de serem personagens muito bem escritos, com personalidades marcantes e conflitantes. A beleza está em ver como a história do crime que tem em seu epicentro amizade pura e crua, afetar a dupla até que eles vejam um no outro o que lhes falta, que estar sozinho deve ser uma escolha e não uma imposição. Chega ser poético ver uma amizade surgir enquanto outras ruem.

E, como se não bastasse, chegamos ao ponto mais ousado de O Canto dos Segredos: Todo mistério de assassinato normalmente se baseia em descobrir quem foram os responsáveis pelo crime, com esse estilo chegando a se chamar whodunit? Em inglês (algo como “Quem matou?”). Porém, Tana French quebra totalmente essa convenção ao dedicar pouco a nenhum esforço em esconder quem realmente cometeu o crime. Essa informação se torna quase óbvia na metade do obra e é explicitamente revelada ainda faltando quase um quarto do livro a ser lido. O foco não está em quem matou, mas sim em porque, como isso afeta aqueles ao redor e principalmente, como os detetives vão descobrir e resolver essa situação.

Essa ousada abordagem é executada com maestria por French e parece ser uma marca sua (o terceiro livro da série Dublin Murder Squad, O Passado é um Lugar, também apresenta a mesma estrutura, porém com uma execução infinitamente inferior). O Canto dos Segredos é um entretenimento denso e cativante que vale a pena cada página.

Nota

Avaliação: 5 de 5.

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